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Cesário Verde

(1855-1886 / Lisbon)

Ao Diário Ilustrado


Era um deboche enorme, era um festim devasso!
No palácio real brilhava a infame orgia
E até bebiam vinho os mármores do paço.
O Champagne era a rodo, o Deus era a Folia;
Entre o rumor febril soltava gargalhadas,
Pálido e embriagado, o herói da monarquia.
Riam-se os cortesãos p'ras taças empinadas,
E referviam sempre os ponches palacianos,
Nas mesas de oiro e prata, em Roma cinzelada.
Era a repercussão dos bodos luculianos!
E os áulicos boçais e os parasitas nobres
Bebiam avidamente os vinhos de mil anos.
Desmaiavam na rua, à fonte, os Jobs, os pobres;
Em peles de leões os régios pés gozavam
E o norte nos salões gemia uns tristes dobres.
À louca, os convivas, com força, arremessavam
Garrafas de cristal a espelhos de Veneza
E à chuva, ao vento, ao frio, os povos soluçavam.
Tremia vinolenta a velha realeza,
Caíam na alcatifa os duques e os criados
E, sujos, com fragor, rolavam sob a mesa.
A púrpura nada em vinhos transbordados
Cantava um cardeal não sei que chansonette
E o espírito subia aos cérebros irados.
Era um tripúdio infrene o festival banquete!
O rei bêbedo, enfim, vazando o copo erguido,
Quis andar e caiu, de braços, no tapete.
E o sultão em regra em vinhos imergido,
Pisado pelo chão, rojou-se p'ra janela
Como um lagarto imundo, estúpido e comprido.
A brisa dessa noite, hiberna noite bela,
Deu na fornte real uma fugaz lufada,
E o rei, agoniado, à luz de cada estrela,
Curvou-se e vomitou nas pedras da calçada.
.....

Na praça, de manhã, havia, ó rei brutal!
Montões de sordidez horrível e avinhada...
-Nascera o Ilustrado- um vómito real!

Submitted: Tuesday, February 25, 2014

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I am the only being whose doom
No tongue would ask no eye would mourn
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In secret pleasure - secret tears
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